Ivo... ( parte I )

Curiosa rigidez que lhe minou o destino. O homem que era, finou pelas mãos descrentes de indivíduos encapuçados e rebentou pelas costuras, no percurso impenetrável da morte. Ninguêm se atreveu a segui-lo. Fosse para o salvar, fosse por curiosidade de ver como lhe ficava a morte na pele.
Ivo, nome que lhe fora dado pela insistência de uma avó demente e decrépita, sempre foi calado e pensativo. Julgaram sempre as professoras, em conversas sacrílegas, que seria sinal de um grande homem, ou marca de assasssíno em série.
Pois Ivo, nunca se considerou em momento algum um grande homem, e nem a vontade de matar lhe saltou da cabeça para as mãos. Trabalhou a sua vida inteira em café, nunca foi dono de nenhum e quase sempre dispensado por falência do estabelecimento. Logo não será de estranhar, que Ivo no fim da sua vida, não colocasse de lado a possibilidade de ser ele a causa do fecho dos estabelecimentos por onde arrastava a sua vida.
Cedo percebeu, que lugares como os que frequentava, não tinham espaço para albergar sonhos ou projectos. Diga-se então que, Ivo não foi um grande homem, nem um assassino e muito menos um criador ou amante de futuros, por mais remotos que fossem. Na ausência do tempo em frente, aquele em que vivia, eram apenas os minutos reservados a tarefas que só ao corpo e a uma ínfima parte do cérebro competiam.
Tirar café, depois um copo com água, mais tarde um bolo. Não esse não, é de hoje?, olhe embrulhe 2 destes, 4 daqueles, e tire um café, cheio, escaldado... Ivo repetia sempre as mesmas rotinas, gestos e erros. Não pensava. Era atrasado. Anti-social, não convivía, não gostava de bola, não gostava de música, não gostava de tantas coisas que a pergunta que se deveria colocar era:
De que gostas afinal Ivo?
Mas Ivo nunca respondeu pela triste circunstãncia de nunca lhe perguntarem nada.
O que realmente importa contar, é o último dia da vida-não-vida de Ivo Sousa, o mais secreto sem segredos de todos os homens e coisas vivas deste planeta. Até a erva seca tem segredos, ou que seja segredos que nela queiram ver ou encontrar. Mas esta carcassa com prazo a que as instituições e convenções chamam de homem... não.
( continua... )

3 Comments:
Enjoyed a lot!
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