APETITE A METRO

Coisas de gaveta, para gente de gaveta.

Meno:
Miesto: Lisboa, Portugal

É colocada à disposição dos que visitam este blog a criatividade que sempre esteve na gaveta. Desenhos, escritos, contos, divagações, músicas, poesia... tudo o que for encontrando. Tudo que encontrar aqui é original, não contém nenhuma espécie de plágio ou cópia de outro autor que não os que neste blog participam.

streda, marca 08, 2006

Ivo....... ( parte II )

Acreditou Ivo que o seu ultimo dia deve ter sido em tudo igual ao primeiro que se recorda. Isto porque ninguém lhe disse que a primeira recordação pressupõe uma continuidade, e que o ultimo dia é o momento de uma das mais incríveis triagens de ideias, lembranças, lixo e pensamentos, amores e desalentos, verdades escondidas e cruéis sentimentos face a outros.

Acordou e lembrou-se nitidamente da primeira vez que adormeceu. E ficou assim sentado na cama a observar-se. Alguém com uma história embalou-o. Recorda-se de ouvir ainda o quase fim da história, da pessoa a abalar com passos cuidadosos pensando que Ivo já dormia. Recorda-se de estar numa espécie de penumbra ensonada, de não conseguir comunicar, pedir tudo por tudo que o Pai acabasse a estória.
Recorda-se que nunca mais se lembrou de pedir esse desfecho e realizou agora, a fonte de um desconforto e sentimento de falta de algo que o acompanhou a vida inteira. Percebeu e desvendou um grande mistério da sua existência e da sua personalidade. Desmistificou o abstracto e renasceu diferente nessa manhã.

Não lavou os dentes, vestiu a roupa de ontem, não trancou a porta, cumprimentou o porteiro mais a vizinha do 2º direito e fez uma festa no cão minúsculo dela. Não foi trabalhar.

No eléctrico para a Praça da Figueira - dos antigos -, irritou-se. Estava ansioso, e sentia que pela primeira vez todos olhavam para ele. Como se não fosse Ivo, ou um diferente Ivo se tratasse ali sentado.

Pediu horas, como se pedisse água. A senhora assustada respondeu-lhe educada mas não sem antes dar a entender que Ivo tinha no seu pulso um relógio. Desculpou-se de imediato dizendo que estva estragado. Sófrego e logo de seguida perguntou à mulher para onde se dirigia ela. Um homem por perto – alto e de fato – interpelou-a “ este senhor está a incomodá-la?”, mais valia ter dito, se o animal sujo e estranho, de olhar esgaziado e perdido estava a magoar a senhora.

Ivo justificou, não a quero violar. Só quero saber para onde vai. Preciso de ir para algum lado e como não sei para onde vou, calculei que seguir o caminho de alguém que já preparou um itenerário seria mais fácil e eficaz. Quando lá chegar verei se era o correcto.

Mas a maralha que o empurrou para fora do eléctrico só o ouviu até a parte em que Ivo falou qualquer coisa de violar. No chão do Largo da princesa, viu o eléctrico partir com a sua carteira, com o seu sapato esquerdo e possivelmente com o fim da estória.

Ninguém o ajudou a levantar, ninguém lhe perguntou nada, apodreceria no passeio caso não tivesse visto de relance que um outro Eléctrico – dos novos – vinha em sua direcção.

( continua... )

piatok, marca 03, 2006

Ivo... ( parte I )


Curiosa rigidez que lhe minou o destino. O homem que era, finou pelas mãos descrentes de indivíduos encapuçados e rebentou pelas costuras, no percurso impenetrável da morte. Ninguêm se atreveu a segui-lo. Fosse para o salvar, fosse por curiosidade de ver como lhe ficava a morte na pele.

Ivo, nome que lhe fora dado pela insistência de uma avó demente e decrépita, sempre foi calado e pensativo. Julgaram sempre as professoras, em conversas sacrílegas, que seria sinal de um grande homem, ou marca de assasssíno em série.

Pois Ivo, nunca se considerou em momento algum um grande homem, e nem a vontade de matar lhe saltou da cabeça para as mãos. Trabalhou a sua vida inteira em café, nunca foi dono de nenhum e quase sempre dispensado por falência do estabelecimento. Logo não será de estranhar, que Ivo no fim da sua vida, não colocasse de lado a possibilidade de ser ele a causa do fecho dos estabelecimentos por onde arrastava a sua vida.

Cedo percebeu, que lugares como os que frequentava, não tinham espaço para albergar sonhos ou projectos. Diga-se então que, Ivo não foi um grande homem, nem um assassino e muito menos um criador ou amante de futuros, por mais remotos que fossem. Na ausência do tempo em frente, aquele em que vivia, eram apenas os minutos reservados a tarefas que só ao corpo e a uma ínfima parte do cérebro competiam.

Tirar café, depois um copo com água, mais tarde um bolo. Não esse não, é de hoje?, olhe embrulhe 2 destes, 4 daqueles, e tire um café, cheio, escaldado... Ivo repetia sempre as mesmas rotinas, gestos e erros. Não pensava. Era atrasado. Anti-social, não convivía, não gostava de bola, não gostava de música, não gostava de tantas coisas que a pergunta que se deveria colocar era:

De que gostas afinal Ivo?

Mas Ivo nunca respondeu pela triste circunstãncia de nunca lhe perguntarem nada.

O que realmente importa contar, é o último dia da vida-não-vida de Ivo Sousa, o mais secreto sem segredos de todos os homens e coisas vivas deste planeta. Até a erva seca tem segredos, ou que seja segredos que nela queiram ver ou encontrar. Mas esta carcassa com prazo a que as instituições e convenções chamam de homem... não.

( continua... )