Ivo....... ( parte II )
Acreditou Ivo que o seu ultimo dia deve ter sido em tudo igual ao primeiro que se recorda. Isto porque ninguém lhe disse que a primeira recordação pressupõe uma continuidade, e que o ultimo dia é o momento de uma das mais incríveis triagens de ideias, lembranças, lixo e pensamentos, amores e desalentos, verdades escondidas e cruéis sentimentos face a outros.Acordou e lembrou-se nitidamente da primeira vez que adormeceu. E ficou assim sentado na cama a observar-se. Alguém com uma história embalou-o. Recorda-se de ouvir ainda o quase fim da história, da pessoa a abalar com passos cuidadosos pensando que Ivo já dormia. Recorda-se de estar numa espécie de penumbra ensonada, de não conseguir comunicar, pedir tudo por tudo que o Pai acabasse a estória.
Recorda-se que nunca mais se lembrou de pedir esse desfecho e realizou agora, a fonte de um desconforto e sentimento de falta de algo que o acompanhou a vida inteira. Percebeu e desvendou um grande mistério da sua existência e da sua personalidade. Desmistificou o abstracto e renasceu diferente nessa manhã.
Não lavou os dentes, vestiu a roupa de ontem, não trancou a porta, cumprimentou o porteiro mais a vizinha do 2º direito e fez uma festa no cão minúsculo dela. Não foi trabalhar.
No eléctrico para a Praça da Figueira - dos antigos -, irritou-se. Estava ansioso, e sentia que pela primeira vez todos olhavam para ele. Como se não fosse Ivo, ou um diferente Ivo se tratasse ali sentado.
Pediu horas, como se pedisse água. A senhora assustada respondeu-lhe educada mas não sem antes dar a entender que Ivo tinha no seu pulso um relógio. Desculpou-se de imediato dizendo que estva estragado. Sófrego e logo de seguida perguntou à mulher para onde se dirigia ela. Um homem por perto – alto e de fato – interpelou-a “ este senhor está a incomodá-la?”, mais valia ter dito, se o animal sujo e estranho, de olhar esgaziado e perdido estava a magoar a senhora.
Ivo justificou, não a quero violar. Só quero saber para onde vai. Preciso de ir para algum lado e como não sei para onde vou, calculei que seguir o caminho de alguém que já preparou um itenerário seria mais fácil e eficaz. Quando lá chegar verei se era o correcto.
Mas a maralha que o empurrou para fora do eléctrico só o ouviu até a parte em que Ivo falou qualquer coisa de violar. No chão do Largo da princesa, viu o eléctrico partir com a sua carteira, com o seu sapato esquerdo e possivelmente com o fim da estória.
Ninguém o ajudou a levantar, ninguém lhe perguntou nada, apodreceria no passeio caso não tivesse visto de relance que um outro Eléctrico – dos novos – vinha em sua direcção.
( continua... )

