APETITE A METRO

Coisas de gaveta, para gente de gaveta.

Meno:
Miesto: Lisboa, Portugal

É colocada à disposição dos que visitam este blog a criatividade que sempre esteve na gaveta. Desenhos, escritos, contos, divagações, músicas, poesia... tudo o que for encontrando. Tudo que encontrar aqui é original, não contém nenhuma espécie de plágio ou cópia de outro autor que não os que neste blog participam.

utorok, júna 12, 2007

observa exilado em exalação subtil

Refeição em Portimão!

Chica coxeia, serve o prato do dia – febras – e sandes diversas a clientes com vontade de cerveja e jarros de vinho da casa. Tinto de secar gengivas e arrepiar estômagos mais sensíveis. São cinquenta e muitos os anos que carrega. Mesmo que a realidade lhe coloque os correctos quarentas. Poderá ser a perna que desenha sola e borracha no azulejo, ou o óleo queimado que paira na cozinha que lhe deforma os poros, sulca e amarela a pele. é a velha, de voz esforçada como se tivesse cantado fado e bebido taças feito severa durante a mocidade. Não me parece que alguma vez tivesse cantado. Pouco importa pois também não lhe perguntaria.
Pois Decerto que a mulher seca, pouco dada à palavra, ignorasse qualquer tipo de interpelação para alem da ordem dos pedidos da maralha. O que é de beber, o que é de comer, o que é de sobremesa e se bebe café…. Aguardente?... vou ver!

Outras mulheres pairam na tasca, almoçam com os talheres engolidos nas mãos, golfando a alface do bitoque. ora com os dedos ora com movimentos reptílios de garganta. Facilmente mulheres de alterne de língua e resposta afiada, que se alimentam para arriscar pela noite fora substanciadas por estórias a que chamam experiência de vida por um processo acumulativo. Estáticas por vezes, quando sentem o sotaque familiar num canal por cabo. O país que os pariu violenta-lhes a refeição, e elas gostam. Não lhe cobram o privado.

Surge na tela o reformado, pelo pólo e corte de cabelo aprumado decerto um funcionário público ou bancário ( entenda-se caixa ) que desajeitado paira por cima daquele sexo que de cio pouco tem, mas cujas hormonas enganam pelo aparente sexo fácil. Engana-se, uma puta de noite é uma mãe durante o dia. E o trocadilho fácil não lhe abona credibilidade, aumenta-lhe a fome e o desespero solitário da masturbação sexagenária. Esforça-se por um relato de ocupado de um dia vazio, feito de refeições frugais e caseiras, desprovidas de família. Um prenuncio de morte, um pensamento nunca ausente, um finar de objectivos sobre duas pernas e mil braços solarizadas até exaustão… ali!

Chica Manca adormeceu debruçada sobre a mesa.

A televisão com sotaque, fala de assassinatos, proxenetas, droga, lavagem de dinheiros, suspeitos foragidos, e sol carioca.

O peito mole e abundante da brasileira lateja aos olhos de mais um trolha. Todos se servem livremente de sumos da arca. O filho mais novo serve cerveja em surdina aos amigos. E assim é.